Ricardo Domingues, presidente da APAJO, não mede palavras quando fala sobre este tema: os influencers estão a levar os consumidores para o mercado ilegal. O jogo online regulado cresce cerca de 9% ao ano e estabilizou nesse patamar, mas há cerca de 40% de apostadores no jogo ilegal promovido por essas pessoas. A declaração é forte, mas os dados suportam-na. E depois de anos a observar esta dinâmica, posso confirmar que o fenómeno é real e está a intensificar-se.
Este não é um artigo sobre demonizar as redes sociais. É sobre entender como um mecanismo de promoção funciona, que impacto tem nos apostadores — particularmente nos mais jovens — e porque é que a resposta das autoridades tem sido insuficiente.
Como Funciona a Promoção Ilegal por Influencers
O modelo é simples e lucrativo. Um influencer com dezenas ou centenas de milhares de seguidores publica conteúdo — stories, reels, vídeos — onde mostra “ganhos” em plataformas de apostas. Os valores exibidos são impressionantes. A mensagem implícita é clara: apostar é fácil, rentável e acessível. O link na bio ou no swipe-up redireciona para um operador ilegal, e o influencer recebe uma comissão por cada registo ou depósito.
O problema vai além da ilegalidade da plataforma promovida. Muitos destes influencers apresentam o jogo como uma forma de gerar rendimentos, o que é absolutamente absurdo, como o próprio Ricardo Domingues já sublinhou publicamente. A narrativa de “trading desportivo” ou “investimento em apostas” é uma distorção deliberada que apaga a realidade do risco e da perda.
O número de influenciadores a normalizar este comportamento de jogar em sites ilegais é cada vez maior, e o presidente da APAJO já classificou a situação como uma pandemia. A metáfora é forte, mas reflete a velocidade de propagação: o conteúdo viraliza, novos influencers copiam o modelo, e a audiência cresce exponencialmente.
Há uma ironia neste sistema: os influencers que promovem apostas ilegais fazem-no frequentemente com produções cuidadas — grafismos, edição profissional, testemunhos fabricados. O resultado é conteúdo que parece legítimo e que é difícil de distinguir de publicidade regulada. Para um jovem de 18 ou 19 anos sem literacia financeira nem conhecimento do enquadramento legal, a diferença é invisível.
Queixas e Investigações
A APAJO já apresentou queixas contra mais de 30 influencers, segundo declarações de Ricardo Domingues. A associação sabe que existiram algumas investigações, mas nunca foi deduzida nenhuma acusação. “É caso para dizer que o crime compensa” — a frase é do próprio presidente da APAJO, e traduz uma frustração partilhada por todo o setor regulado.
A questão legal é complexa. A promoção de jogo ilegal é, em teoria, punível pela lei portuguesa. Mas provar que um influencer sabia que a plataforma era ilegal, que a promoção constitui publicidade no sentido legal e que houve dano concreto aos consumidores exige recursos investigativos que as autoridades nem sempre têm disponíveis. Entretanto, o conteúdo continua online, alcançando milhares de pessoas diariamente.
As plataformas de redes sociais — Instagram, TikTok, YouTube — têm políticas contra a promoção de jogo ilegal, mas a aplicação dessas políticas é inconsistente. Conteúdo flagrantemente promocional pode permanecer ativo durante semanas ou meses antes de ser removido, se é que alguma vez o é. E mesmo quando um conteúdo é removido, o influencer pode republicá-lo com ligeiras alterações e recomeçar o ciclo.
O desfasamento entre a velocidade de publicação e a velocidade de enforcement é o cerne do problema. Um influencer publica um story promocional que é visto por 50.000 pessoas em 24 horas. Mesmo que o conteúdo seja removido ao fim de uma semana, o dano já está feito — os registos já foram realizados, os depósitos já foram feitos. A remoção posterior é um remédio para uma doença que já se propagou.
O Impacto nos Jovens Apostadores
É aqui que o tema se torna mais sério. Em Portugal, 34,9% dos apostadores registados têm entre 18 e 24 anos. E entre setembro de 2023 e setembro de 2024, 30,9% dos novos registos foram dessa faixa etária. São os mesmos jovens que passam horas diárias nas redes sociais e que são o público-alvo natural dos influencers.
O estudo BlindGame, que analisou 2.028 jovens entre 15 e 34 anos, revelou que 67,6% já apostaram dinheiro e que 7,3% gastam mais de 100 euros por mês em apostas. Estes dados, combinados com a exposição constante a conteúdo que normaliza e glorifica o jogo, criam um terreno perigoso.
O mecanismo psicológico é conhecido: exposição repetida a imagens de sucesso (ganhos exibidos pelo influencer) cria uma perceção distorcida da probabilidade de ganho. O apostador jovem vê os “ganhos” mas nunca vê as perdas — porque as perdas não são publicadas. O resultado é uma expectativa irrealista que leva a comportamentos de risco: apostas acima do que pode perder, perseguição de perdas, depósitos impulsivos.
Há um aspeto deste fenómeno que raramente é discutido: a normalização social. Quando um jovem vê cinco, dez, vinte influencers a promover apostas diariamente, a mensagem implícita não é apenas “podes ganhar dinheiro” — é “toda a gente faz isto, é normal”. Esta normalização é mais perigosa do que qualquer promoção individual, porque redefine o que a pessoa considera comportamento aceitável e quotidiano. Apostar deixa de ser uma decisão consciente e passa a ser uma atividade de fundo, como verificar o email ou abrir as redes sociais.
Para os pais, educadores e para a sociedade em geral, a mensagem é clara: a literacia sobre apostas desportivas — o que são, como funcionam, quais são os riscos — precisa de acompanhar a literacia digital. Proibir o acesso não funciona quando o conteúdo está em todo o lado. Educar sobre o funcionamento do sistema — incluindo o facto de que a casa ganha sempre a longo prazo — é a única proteção durável.
