Quem aposta online em Portugal? A resposta, se baseada nos estereótipos, estaria errada. O perfil do apostador português evoluiu enormemente na última década, e os dados do SRIJ pintam um retrato que surpreende muita gente. Em setembro de 2025, existiam cerca de 5 milhões de registos acumulados nas plataformas de jogo online em Portugal — num país com pouco mais de 10 milhões de habitantes.
Estes dados não significam que metade da população portuguesa aposta online. Muitos registos são inativos, e uma pessoa pode ter contas em vários operadores. Mas indicam inequivocamente que o jogo online deixou de ser um nicho e passou a ser uma atividade com penetração significativa na sociedade portuguesa.
Distribuição por Idade
O dado mais marcante da demografia do jogo online em Portugal é a juventude dos apostadores. Segundo o relatório anual do SRIJ para 2025, 77% dos apostadores têm até 45 anos. Mas é a faixa dos 18 aos 24 anos que domina: representa 34,9% do total de apostadores registados.
Entre setembro de 2023 e setembro de 2024, 30,9% dos novos registos foram de jovens de 18 a 24 anos. Isto não é um fenómeno novo, mas a sua persistência levanta questões importantes. Pedro Hubert, diretor do Instituto de Apoio ao Jogador (IAJ), tem alertado repetidamente: a idade média de quem procura ajuda já não é 30 anos, mas sim 20, 22, 23.
O que explica esta sobre-representação dos jovens? Vários fatores convergem: a familiaridade com plataformas digitais, a exposição a publicidade de apostas nas redes sociais, a influência de pares e a acessibilidade dos depósitos via MB Way. Para um jovem de 18 anos com um smartphone e uma conta MB Way, a barreira de entrada para as apostas online é praticamente inexistente.
Estes dados não significam que todos os jovens que se registam se tornam apostadores problemáticos. A maioria aposta ocasionalmente e com montantes reduzidos. Mas a concentração nesta faixa etária exige atenção, porque é também a faixa mais vulnerável à normalização do jogo como atividade quotidiana.
Distribuição Geográfica e Nacionalidade
Se pensava que as apostas online são um fenómeno uniformemente distribuído pelo país, os dados dizem o contrário. Lisboa e Porto dominam claramente: 21,8% e 21% dos apostadores, respetivamente. Juntas, as duas grandes áreas metropolitanas concentram quase metade de toda a atividade.
Esta concentração não é surpreendente — acompanha a distribuição da população e, mais importante, a distribuição do acesso digital e da exposição a marketing de apostas. As áreas metropolitanas têm maior penetração de smartphones, maior cobertura de rede móvel e maior concentração de eventos desportivos presenciais, que funcionam como catalisadores para a atividade online.
Quanto à nacionalidade, 95,1% dos jogadores são de nacionalidade portuguesa. A comunidade brasileira representa 5,02% dos registos — um dado que reflete a dimensão da diáspora brasileira em Portugal e a familiaridade cultural com as apostas desportivas, que são extremamente populares no Brasil.
É interessante notar que a concentração em Lisboa e Porto não se traduz automaticamente num perfil homogéneo de apostador. As duas cidades têm culturas desportivas distintas — rivalidades diferentes, clubes diferentes, tradições diferentes. O tipo de aposta mais popular em Lisboa pode não ser o mesmo no Porto. Para os operadores, esta diversidade regional exige estratégias de marketing diferenciadas. Para o apostador, é um lembrete de que o conhecimento local é uma vantagem competitiva real.
A concentração geográfica tem implicações práticas para quem analisa o mercado. Os operadores que investem em marketing localizado nas áreas de Lisboa e Porto estão a direcionar-se para onde está a maior densidade de apostadores. Para o apostador individual, esta informação é mais uma curiosidade do que um fator de decisão, mas contextualiza o ambiente em que o mercado opera.
Hábitos de Jogo e Modalidades Preferidas
O futebol é rei, e os números confirmam-no: 75,6% das apostas desportivas em 2025 foram colocadas em futebol. O ténis ocupa o segundo lugar com 10,6%, seguido pelo basquetebol com 9,6%. Estas três modalidades concentram mais de 95% de toda a atividade de apostas desportivas em Portugal.
Um dado particularmente interessante do SRIJ é que 42,8% dos jogadores participaram em ambas as categorias — apostas desportivas e casino — no primeiro trimestre de 2025. Isto sugere que o apostador português não é necessariamente “só desportivo” ou “só casino”; há uma sobreposição significativa de público entre as duas modalidades.
O comportamento sazonal é outro padrão visível nos dados. Os períodos com maior atividade coincidem com as grandes competições de futebol — Campeonatos Europeus, Mundiais, fase final da Champions League — e com os Grand Slams de ténis. Nos meses de verão, quando as principais ligas de futebol estão em pausa, a atividade tende a diminuir, com o ténis a ganhar proporção relativa.
Há ainda um padrão de comportamento que merece atenção: a crossover entre apostas desportivas e casino. Com 42,8% dos jogadores a participar em ambas as categorias, o apostador português não é monolítico nas suas escolhas. Esta sobreposição levanta questões sobre a exposição total ao risco — alguém que aposta 50 euros por semana em futebol e gasta outros 50 em slots tem uma exposição de 100 euros, não de 50. Os dados do SRIJ sobre esta crossover são essenciais para perceber o quadro completo da atividade de jogo em Portugal.
O estudo BlindGame, que analisou 2.028 jovens entre 15 e 34 anos, trouxe dados adicionais sobre os hábitos de jogo desta geração: 67,6% já apostaram dinheiro e 7,3% gastam mais de 100 euros por mês. Estes números mostram que, entre os mais jovens, o jogo não é uma atividade marginal — é algo que a maioria já experimentou e que uma minoria significativa pratica com intensidade relevante.
O perfil do apostador português está a mudar — mais jovem, mais digital, mais informado sobre mercados e ferramentas. Esta evolução traz oportunidades (mais dados disponíveis, mais competição entre operadores, melhor experiência de utilizador) mas também responsabilidades. E a maior responsabilidade, tanto do regulador como dos operadores e da sociedade, é garantir que a proteção acompanha o crescimento do mercado.
