Sempre que falo sobre fiscalidade nas apostas, vejo a mesma reação: olhos vidrados e mudança de assunto. Percebo — não é o tema mais entusiasmante. Mas ignorar como funcionam os impostos no jogo online é ignorar uma peça fundamental do mercado. O Imposto Especial de Jogo Online (IEJO) gerou 254 milhões de euros nos primeiros nove meses de 2025, e a estimativa para o ano completo ronda os 353 milhões. Estes números afetam diretamente as odds que recebe, a competitividade dos operadores e, indiretamente, o valor que fica no seu bolso.
Estrutura do IEJO: Taxas por Modalidade
O IEJO não é um imposto único — é uma estrutura com taxas diferentes consoante a modalidade de jogo. E as diferenças são significativas.
Para as apostas desportivas à cota, o imposto incide sobre a receita bruta do operador (diferença entre apostas recebidas e prémios pagos) com taxas progressivas entre 8% e 16%. O escalão depende do volume: quanto maior a receita bruta, maior a taxa marginal. Em termos práticos, isto significa que os operadores com maior volume de negócio pagam proporcionalmente mais.
Para os jogos de fortuna ou azar (casino online), a taxa é substancialmente mais elevada: 25% sobre a receita bruta, podendo chegar a 35% em determinados escalões. Esta diferença de carga fiscal entre apostas desportivas e casino explica, em parte, porque as odds nas apostas desportivas tendem a ser mais competitivas do que a house edge no casino — o operador de apostas desportivas tem mais margem para oferecer valor ao jogador.
A progressividade do imposto nas apostas desportivas merece destaque. Os escalões mais baixos (8%) aplicam-se a receitas brutas trimestrais reduzidas, enquanto os escalões superiores (16%) aplicam-se a volumes mais elevados. Na prática, os grandes operadores com receitas brutas significativas pagam uma taxa efetiva mais próxima do limite superior, o que influencia a sua capacidade de oferecer odds competitivas. Os operadores mais pequenos, com taxas efetivas mais baixas, podem teoricamente competir em odds, mas frequentemente não o fazem por limitações de escala noutras áreas.
No terceiro trimestre de 2025, o IEJO arrecadou 89,8 milhões de euros — um aumento de 8,8% face ao mesmo período do ano anterior. O total acumulado de janeiro a setembro atingiu 254 milhões, com um crescimento de 3,3% em relação a 2024. Ricardo Domingues, presidente da APAJO, estima que o Estado perde facilmente 100 milhões de euros anuais em impostos por causa do jogo ilegal — receita que nunca chega aos cofres públicos porque os operadores ilegais não pagam IEJO.
O Jogador Paga Impostos Sobre os Ganhos?
Esta é a pergunta que realmente interessa à maioria das pessoas. E a resposta é surpreendentemente favorável ao jogador, pelo menos em comparação com outros países.
Em Portugal, os ganhos em apostas desportivas obtidos em operadores licenciados pelo SRIJ não são tributados ao jogador. O imposto (IEJO) é pago pelo operador sobre a sua receita bruta, não pelo apostador sobre os seus ganhos. Isto significa que, se ganhar 10.000 euros em apostas desportivas num operador com licença SRIJ, esses 10.000 euros são seus na totalidade — não há obrigação de os declarar como rendimento nem de pagar imposto sobre eles.
Há uma ressalva importante: esta isenção aplica-se aos ganhos em operadores licenciados em Portugal. Ganhos obtidos em plataformas estrangeiras não licenciadas podem ter um tratamento fiscal diferente, dependendo da interpretação das autoridades fiscais. E, naturalmente, apostar em plataformas ilegais expõe o jogador a riscos que vão muito além da questão fiscal.
Para o jogador português, o regime fiscal é efetivamente um dos mais favoráveis da Europa. Em países como a França ou a Espanha, os ganhos acima de determinados limiares são tributados. Na Alemanha, o imposto incide sobre o volume de apostas, não sobre os ganhos. O modelo português, ao tributar apenas o operador, simplifica a vida do apostador e elimina a necessidade de contabilidade fiscal pessoal.
Receita Fiscal do Jogo Online
Os números do IEJO contam uma história interessante sobre a evolução do mercado. Em 2025, a receita fiscal estimada do jogo online rondou os 353 milhões de euros — um aumento de 5,47% face a 2024. Este crescimento é positivo, mas inferior aos dois dígitos registados nos anos anteriores, o que reflete o amadurecimento do mercado.
A receita bruta das apostas desportivas à cota atingiu 447 milhões de euros em 2025, com um crescimento de 3,23%. Este crescimento mais modesto nas apostas desportivas, comparado com o casino online, sugere que o segmento está a aproximar-se de um patamar de estabilidade. O volume total de apostas desportivas em 2024 tinha sido de 2.053,2 milhões de euros — um recorde — mas o ritmo de crescimento está claramente a desacelerar.
A grande incógnita nesta equação é o mercado ilegal. Se 40% dos apostadores utilizam plataformas não licenciadas e o Estado perde estimados 100 milhões de euros por ano em impostos com o jogo ilegal, o potencial de receita fiscal está longe de ser totalmente capturado. A canalização de jogadores do mercado ilegal para o legal seria benéfica não apenas em termos fiscais, mas também em termos de proteção do consumidor e de jogo responsável.
Uma questão que me colocam frequentemente é se a carga fiscal em Portugal é competitiva face a outros mercados europeus. A resposta é matizada. As taxas do IEJO sobre apostas desportivas (8%-16%) são inferiores às de países como a França, onde o imposto pode atingir 33% sobre certos tipos de apostas. Mas são superiores às de jurisdições como Malta ou Gibraltar, que atraem operadores com regimes fiscais mais favoráveis. O equilíbrio entre gerar receita fiscal e manter o mercado competitivo face ao mercado ilegal é o dilema central da política fiscal do jogo online em Portugal.
Para o apostador, a lição prática é simples: apostar em operadores licenciados não só é mais seguro como é fiscalmente vantajoso. Os ganhos são isentos de imposto pessoal, e cada euro apostado legalmente contribui para um ecossistema regulado que protege todos os participantes.
