Nenhum dos meus colegas analistas previa, em 2020, que o mercado de jogo online em Portugal chegaria a 1,23 mil milhões de euros de receita bruta em 2025. O crescimento foi explosivo nos primeiros anos, impulsionado pela pandemia e pela migração massiva para o digital. Mas agora estamos numa fase diferente. Ricardo Domingues, presidente da APAJO, resume-o bem: os dados confirmam a expectativa do setor de uma tendência de desaceleração de crescimento que se justifica pelo amadurecimento do mercado.
Este artigo traça a evolução das receitas com dados do SRIJ — o único repositório oficial — e analisa o que os números dizem sobre o futuro do mercado.
Evolução Anual das Receitas Brutas
O quarto trimestre de 2024 registou a receita bruta trimestral mais alta de sempre: 323 milhões de euros. Foi o pico de um ciclo de crescimento que se iniciou em 2020 com a aceleração provocada pela pandemia. Nesse ano, milhares de portugueses que nunca tinham apostado online fizeram-no pela primeira vez, e muitos ficaram.
O volume total de apostas online nos primeiros nove meses de 2025 atingiu 16,7 mil milhões de euros — um crescimento de 10,2% face ao mesmo período do ano anterior. Estes são números de volume bruto, não de receita. A receita bruta (o que fica para os operadores após pagamento de prémios) é uma fração desse valor, mas acompanha a mesma tendência de crescimento.
O que os números anuais não mostram é a volatilidade trimestral. O mercado de apostas desportivas é sazonal: os trimestres com mais competições de futebol (primeiro e quarto) tendem a gerar mais receita do que os meses de verão. Esta sazonalidade é previsível, mas a sua magnitude varia de ano para ano em função do calendário desportivo — um ano com Campeonato Europeu ou Mundial produz picos significativamente superiores.
A trajetória é clara: crescimento acelerado entre 2020 e 2023, seguido de uma desaceleração gradual. O mercado não está a encolher — continua a crescer — mas a um ritmo que se aproxima de um dígito. Isto é normal para um mercado que atingiu a maturidade regulatória e de penetração.
Análise Trimestral 2025
Os dados trimestrais de 2025 revelam um padrão consistente com a narrativa de amadurecimento. No primeiro trimestre, a receita bruta do jogo online foi de 284,7 milhões de euros — um crescimento de 9,1% face ao primeiro trimestre de 2024. No terceiro trimestre, a receita foi de 297,1 milhões, com um crescimento de 11,6% em termos homólogos.
Estes números mostram que o crescimento continua, mas a taxa varia entre trimestres. O terceiro trimestre de 2025 beneficiou do calendário de ténis (com o US Open e Wimbledon) e do arranque das ligas de futebol europeias, o que explica a taxa de crescimento ligeiramente superior à do primeiro trimestre.
O volume total de apostas (não confundir com receita) nos primeiros nove meses de 2025 foi de 16,7 mil milhões de euros. Este número impressionante reflete o volume bruto apostado, do qual os operadores retêm a sua margem. A diferença entre volume apostado e receita bruta dá uma indicação da margem média do mercado — e no terceiro trimestre de 2025, a margem dos operadores nas apostas desportivas foi de 19,8%, inferior aos 22,9%-25,9% dos três trimestres anteriores.
Esta compressão de margens é um sinal de maturidade competitiva: com mais operadores a competir pelos mesmos apostadores, as odds tornam-se mais competitivas e a margem para o operador diminui. Para o apostador, isto é positivo — margens menores significam odds mais favoráveis.
Um detalhe que poucos analistas mencionam: a compressão de margens no terceiro trimestre coincide com o início da temporada de futebol, quando o volume de apostas é elevado e os operadores competem agressivamente para captar e reter clientes. Nos trimestres com menor volume, a margem tende a recuperar. Este padrão sazonal nas margens é algo que o apostador informado pode explorar — as melhores odds tendem a surgir nos períodos de maior concorrência entre operadores.
Receitas das Apostas Desportivas à Cota
Dentro do universo do jogo online, as apostas desportivas à cota representam uma fatia importante mas não dominante. Em 2025, a receita das apostas desportivas à cota atingiu 447 milhões de euros, com um crescimento de 3,23% face a 2024.
Este crescimento de 3,23% é significativamente inferior ao crescimento do jogo online como um todo. O casino online está a crescer mais rapidamente do que as apostas desportivas, diversificando a base de receita dos operadores. Para o apostador desportivo, esta tendência não é necessariamente negativa — significa que os operadores dependem menos das apostas desportivas como fonte exclusiva de receita, o que pode reduzir a pressão para aumentar margens neste segmento.
O volume de apostas desportivas no terceiro trimestre de 2025 foi de 504,6 milhões de euros. Em 2024, o volume total anual de apostas desportivas tinha atingido o recorde de 2.053,2 milhões de euros. Os dados de 2025 sugerem que este recorde será ultrapassado, embora por uma margem mais modesta do que nos anos anteriores.
Uma métrica que merece atenção é a relação entre volume apostado e receita bruta. Quando o volume cresce mais rapidamente do que a receita, significa que os apostadores estão a receber uma proporção maior dos seus montantes de volta — ou seja, as odds estão a tornar-se mais favoráveis. Esta tendência, observada ao longo de 2025, é consistente com a compressão de margens que já referi e é uma boa notícia para o apostador informado.
Para quem acompanha o mercado com regularidade, estes dados são mais do que estatísticas — são indicadores da saúde e da direção do ecossistema. Um mercado em crescimento moderado, com margens em compressão e diversificação de receita, é um mercado que favorece o apostador informado. Mais concorrência entre operadores, odds mais competitivas e maior investimento em tecnologia e experiência de utilizador são consequências diretas desta dinâmica.
