Pedro Hubert, diretor do Instituto de Apoio ao Jogador, coloca os números em perspetiva: cerca de 2% da população portuguesa sofre de problemas relacionados com o jogo, e cada caso afeta entre cinco e dez pessoas à sua volta. Não são números abstratos. São pais, parceiros, filhos, amigos e colegas que sentem os efeitos de uma situação que frequentemente se desenvolve em silêncio. Entre 2023 e 2024, os contactos ao IAJ por problemas exclusivamente com jogo online passaram de 38 para 63 — um aumento de 66%.
Este artigo não é fácil de escrever, e provavelmente não é fácil de ler para quem se identifica com o que aqui é descrito. Mas é necessário. Depois de mais de nove anos a analisar o mercado de apostas, sei que a linha entre entretenimento e problema pode ser mais fina do que qualquer pessoa imagina.
Sinais de Alerta do Jogo Compulsivo
O jogo problemático raramente começa como um problema. Começa como diversão, como um hobby, como uma forma de tornar os jogos de futebol mais interessantes. A transição para comportamento problemático é gradual, e é precisamente por isso que é tão difícil de reconhecer em si próprio.
O primeiro sinal é comportamental: apostar mais do que pode perder. Não estou a falar de uma aposta ocasional acima do habitual — estou a falar de um padrão consistente em que o montante apostado excede regularmente o que a situação financeira permite. Se o dinheiro destinado a contas, alimentação ou poupança está a ser desviado para apostas, este é um sinal inequívoco.
O segundo sinal é emocional: a perseguição de perdas. Perder e sentir a necessidade urgente de apostar novamente para “recuperar” não é estratégia — é compulsão. O apostador racional aceita a perda e avalia se houve erro analítico. O apostador com problemas não consegue aceitar a perda e vê na próxima aposta a solução.
O terceiro sinal é social: o segredo. Se esconde das pessoas próximas quanto aposta, quanto perde ou com que frequência joga, este comportamento de ocultação é um indicador forte. A necessidade de esconder a atividade tipicamente indica que a pessoa sabe, a algum nível, que o comportamento é problemático.
Outros sinais incluem: irritabilidade quando tenta reduzir ou parar, negligência de responsabilidades profissionais ou pessoais, mentiras sobre a atividade de jogo e tentativas falhadas de parar ou controlar o comportamento. Nem todos os sinais precisam de estar presentes para que exista um problema.
Um sinal menos discutido mas igualmente relevante é a tolerância crescente. Tal como nas dependências de substâncias, o jogo problemático envolve frequentemente uma escalada: apostas que antes davam emoção deixam de ser suficientes, e o montante ou a frequência aumentam para obter a mesma sensação. Se percebe que precisa de apostar mais para sentir a mesma excitação que sentia no início, este padrão de escalada é um sinal de alerta claro.
Há também o sinal do “dinheiro escondido” — manter fundos nas contas de apostas que a família ou parceiro desconhecem, ou criar contas bancárias separadas especificamente para financiar a atividade de jogo. Esta compartimentalização financeira é um indicador forte de que a pessoa está consciente de que o comportamento não seria aprovado pelas pessoas próximas.
Consequências Financeiras, Emocionais e Sociais
As consequências financeiras são as mais visíveis e frequentemente as que levam a pessoa a procurar ajuda. Dívidas acumuladas, créditos contratados para financiar apostas, esgotamento de poupanças. Em casos extremos, perda de bens, incapacidade de pagar obrigações básicas e situações de insolvência pessoal.
Mas as consequências emocionais podem ser igualmente devastadoras. Ansiedade, depressão, sentimentos de vergonha e culpa, perda de autoestima. O ciclo é particularmente cruel: o jogo começa como fuga de problemas, mas cria problemas maiores que alimentam a necessidade de fuga, que leva a mais jogo. Quebrar este ciclo sem ajuda externa é extraordinariamente difícil.
As consequências sociais completam o quadro. Relações deterioradas, perda de confiança por parte de familiares e amigos, isolamento progressivo. Pedro Hubert nota que a idade média de quem procura ajuda está a descer — já não é 30 anos, mas 20, 22, 23. O IAJ recebe jovens de 18 e 19 anos com problemas gravíssimos de jogo. A precocidade do problema amplifica as suas consequências, porque atinge pessoas numa fase crucial de formação pessoal e profissional.
Como Pedir Ajuda em Portugal
Pedir ajuda é o passo mais difícil. E é o mais importante. Em Portugal, existem recursos gratuitos e confidenciais para quem enfrenta problemas com o jogo.
O Instituto de Apoio ao Jogador (IAJ) é a entidade de referência. Oferece apoio psicológico, aconselhamento e encaminhamento para tratamento. O contacto pode ser feito por telefone, email ou presencialmente. O serviço é confidencial e gratuito.
A Linha Vida (1414) é outra opção, gerida pelo SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências). Embora seja mais conhecida pelo apoio em situações de dependência de substâncias, também abrange o jogo patológico e pode encaminhar para recursos especializados.
Os Jogadores Anónimos (Gamblers Anonymous) têm presença em Portugal, com reuniões presenciais em várias cidades. O formato de grupo de apoio — partilhar experiências com pessoas que enfrentam o mesmo problema — é eficaz para muitas pessoas, especialmente como complemento ao acompanhamento profissional.
A autoexclusão nas plataformas de jogo, através do operador ou do registo centralizado do SRIJ, é uma medida prática que pode ser ativada em paralelo com a procura de ajuda. Em setembro de 2025, 342.200 registos estavam autoexcluídos — uma decisão que cada uma dessas pessoas tomou como primeiro passo de proteção.
Se está a ler isto e reconhece-se em algum dos sinais descritos, quero ser direto: o problema não se resolve sozinho e não melhora com o tempo. Pedir ajuda não é fraqueza — é a decisão mais racional que pode tomar. Os recursos existem. São gratuitos. São confidenciais. E funcionam.
